Nosso Palmeiras
Foto: César Greco

Coluna do Verdão: a polêmica de Vitória x Palmeiras escancarou um velho problema

As primeiras horas após a goleada do Palmeiras sobre o Vitória mostraram um roteiro que já virou tradição no futebol brasileiro. Antes mesmo da bola esfriar, a discussão deixou o campo e passou a girar em torno da arbitragem. Para muitos, a vitória do líder do Brasileirão precisava ter um asterisco. E, mais uma vez, criou-se a narrativa de que o Palmeiras foi favorecido.

O curioso é que, quando o assunto envolve lances interpretativos, dificilmente existe unanimidade. O problema é que, no Brasil, a interpretação costuma mudar de acordo com a camisa de quem está em campo.

Palmeiras
Foto: César Greco

Mais polêmica do que futebol

Até as expulsões, a partida era equilibrada. O Palmeiras não fazia uma grande atuação e encontrava dificuldades para controlar o Vitória. A equipe de Abel Ferreira ainda buscava soluções e, em vários momentos, esteve longe de apresentar um futebol dominante.

Depois dos cartões vermelhos, o cenário mudou completamente. Com dois jogadores a mais ainda no primeiro tempo, o Palmeiras fez exatamente o que se espera de um candidato ao título: aproveitou a vantagem e construiu uma goleada sem maiores sustos.

Por isso, também não faz sentido transformar o resultado em um espetáculo técnico. A superioridade numérica decidiu o rumo da partida e facilitou o trabalho do Verdão. O mérito foi não desperdiçar a oportunidade.

Foto: César Greco
Foto: César Greco

Nem todo lance precisa virar teoria da conspiração

Na minha visão, nem todos os lances foram tão claros quanto muita gente tenta vender.

O episódio envolvendo Maurício, por exemplo, não me parece expulsão. O movimento existe, mas não vejo intenção de acertar o adversário com uma cotovelada. O cartão amarelo aplicado pelo árbitro me parece suficiente diante da jogada.

Já a expulsão de Cacá também abre espaço para discussão. Particularmente, teria aplicado apenas o cartão amarelo. Foi uma entrada forte, dura, mas não enxergo um lance claro para expulsão direta. É uma interpretação possível, ainda que o árbitro tenha entendido de outra forma após revisar o VAR.

Ou seja: é perfeitamente aceitável discordar das decisões da arbitragem. O que não é aceitável é transformar qualquer decisão favorável ao Palmeiras em prova de favorecimento.

A expulsão que ninguém consegue defender

Se existe um lance praticamente impossível de contestar, é a expulsão de Luan Cândido.

O lateral prejudicou o próprio time ao fazer um gesto interpretado como acusação de roubo contra a arbitragem. Em tempos de VAR, dezenas de câmeras e monitoramento constante, esse tipo de atitude dificilmente passaria despercebido.

Foi um erro de cabeça, de inteligência emocional. O Vitória ainda tinha condições de tentar competir mesmo com um jogador a menos. Ao receber o segundo vermelho poucos minutos depois, praticamente entregou a partida ao adversário.

O problema nunca é a regra. É para quem ela vale.

O futebol brasileiro precisa aprender a separar duas coisas: discordar da interpretação de um árbitro e criar uma narrativa de perseguição ou favorecimento.

Pode-se defender que um lance era para amarelo e não para vermelho. Pode-se questionar a condução da arbitragem. Isso faz parte do debate esportivo.

O que não faz sentido é concluir automaticamente que qualquer decisão favorável ao Palmeiras representa benefício ao clube. Se a mesma jogada acontece com outra camisa, muitas vezes a reação seria completamente diferente.

Talvez o que mais esteja faltando no futebol brasileiro não seja uma arbitragem perfeita — porque ela dificilmente existirá. O que realmente falta é coerência. Enquanto a análise depender mais da paixão pelo escudo do que da interpretação da regra, a discussão continuará sendo menos sobre futebol e mais sobre clubismo.

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